Na comunidade de Gonçalo, o tempo parece ter
desacelerado em frente a uma fachada que, hoje silenciosa, já foi o epicentro
da vida e da alegria de gerações. Entre as décadas que moldaram nossa
juventude, a Boite Muricy não era apenas um estabelecimento
comercial; era o nosso ponto de encontro com o destino.
Para muitos de nós, que cruzamos aquele portal durante
a juventude, a Boite Muricy foi o cenário das amizades seladas no ritmo das
músicas da época e das paqueras que, em muitos casos, viraram casamentos e
famílias, como no meu caso. Sob as luzes coloridas, a luz negra e o som que
ecoava pelos fins de semana de Gonçalo, construímos uma identidade coletiva que
o tempo não apaga.
Hoje, através do olhar e das memórias de quem deu vida
a esse sonho (Ny e Maricota), mergulhamos nos bastidores dessa história através
de uma entrevista. Vamos descobrir como surgiu a ideia, os desafios de manter
viva a chama do entretenimento no interior e a importância de um lugar que,
mais do que música, bebida e dança, oferecia um senso de pertencimento. Esta é
uma homenagem a um patrimônio afetivo que permanece pulsando nas lembranças de
cada um que, um dia, fez da Boite Muricy uma memória que jamais será esquecida.
Por: Leonardo Maia Matos - 2026
Entrevista realizada por Leonardo Maia
Matos em abril de 2026
Ny
e Maricota na Boite Muricy - 1991 Léo Maia – 2009 – Boite Muricy
Mª: Maria Deraldina Damacena Muricy (Maricota).
Avony: Avony Lopes Muricy (Ny)
Em que ano exatamente a Boite Muricy
abriu as portas?
Mª: No ano de 1986.
De quem foi a ideia inicial de abrir
uma boate em Gonçalo?
Mª: A ideia foi de Avony, pois já trabalhava com bar na comunidade há algum
tempo.
Por que escolheram esse ramo de entretenimento?
Avony: Porque eu já tinha experiência com bar.
Qual a origem do nome " Boite Muricy"?
Quem o escolheu e por quê?
Avony: Eu escolhi por causa do meu sobrenome.
O que funcionava no imóvel antes da
boate?
Avony: A casa da minha mãe, já falecida na época.
Como foi o dia da inauguração? Vocês
lembram da expectativa da comunidade?
Mª: Avony já trabalhava com bar anteriormente, primeiramente num bar que funcionava onde antigamente era a casa de D. Ester e depois mudou o bar para onde era o antigo bar de Vanjinho. Ele apenas transferiu o bar de um lugar para outro. De onde era o antigo bar de Vanjinho para onde era a casa da sua mãe. Lá abriu a Boite Muricy. A diferença é que a partir do momento passou a ser boate também. A comunidade aderiu a ideia e continuou frequentando. Agora, não só pra beber, mas para socializar e dançar também.
Qual era o objetivo principal de vocês ao abrir o negócio: lucro, lazer ou necessidade da região?
Avony: Havia a necessidade de abrir um negócio como sustento
da família.
Quais eram os dias e horários de
funcionamento?
Mª: Funcionava aos fins de semana, aos sábados (o dia todo e a noite também) e
domingos (somente a noite). À noite abria as 20:00h e fechava por volta da meia
noite ou 1:00h da madrugada.
Quem trabalhava com vocês, haviam
outros funcionários?
Avony: Um ajudava no balcão (o primeiro foi Daílton, filho
do Sr. Lionel) e outro na portaria (Idelson, filho de D. Maria). Houveram outros
no decorrer dos anos.
Como era o controle de entrada?
Mª: Para entrar, os homens tinham que consumir alguma bebida. As mulheres
tinham entrada livre.
Existiam regras de conduta ou idade
mínima para entrar na Boite Muricy?
Mª: A idade mínima era 15 anos. As vezes adolescentes com idade menor se
aproveitavam de distrações e entravam sem permissão, mas eram retirados um a um
por mim assim que eu percebia. As regras eram se comportar, não bagunçar. De
tempo em tempo as luzes eram acesas pra verificarmos se estava tudo certo.
O estabelecimento dava um lucro
satisfatório para o sustento da família?
Avony: Dava sim. Os nossos dois filhos foram formados com os
lucros do estabelecimento. Eu também fazia pequenos bicos de pedreiro pra
completar a renda.
Como vocês lidavam com a questão dos
menores de idade, já que era um ponto de encontro de adolescentes?
Mª: Como já foi mencionado, periodicamente eu entrava no salão para retirar
os adolescentes mais jovens que insistiam em entrar sem permissão.
Quem era o responsável pela seleção
musical? Como funcionava?
Avony: Eu era o responsável. Usava uma mesa de som com
misturador pra alternar de gênero musical pra outro sem precisar parar o som.
Quais gêneros musicais não podiam
faltar?
Avony: Eram vários gêneros. Forró, axé, reggae, balanço e a
música internacional romântica, momento
esperado pelos que queriam paquerar ao clima da luz negra.
Vocês lembram de algum casal que se
conheceu na boate e está junto até hoje?
Mª: Conhecemos vários: Podemos citar
por exemplo Leonardo e Maísa. Mas foram muitos os casais que iniciaram o
relacionamento tendo como trilha sonora e cenário romântico a Boite Muricy.
Ocorriam muitas brigas ou o ambiente
era majoritariamente pacífico?
Mª: De vez em quando tinham brigas, mas normalmente ninguém
se feria gravemente ou usava armas. As vezes os policiais entravam e mantinham
a ordem do local. O policiamento era solicitado por nós. Dávamos um suporte
financeiro pra que eles pudessem se manter na delegacia de Gonçalo. Eram feitas
rifas e doações pela comunidade pra contribuir com o policiamento.
Havia festas temáticas ou
comemorações especiais (Carnaval, São João, Aniversários)?
Mª: No carnaval eram feitas matinês para as crianças.
Tinha até jurados pra julgar as melhores fantasias e tinha também premiações
para os melhores colocados. Eram realizadas sempre a tarde. Era a alegria das
crianças que já ficavam na expectativa.
Léo Maia, “Jó”, Léo Queiroz, Silmar,
Danilo, Gilvando, André Carvalho, André Rocha
Kéu, Júnior, Diego e Marcelo – CARNAVAL EM GONÇALO 1992
Qual o momento ou festa mais marcante que aconteceu entre aquelas paredes?
Mª: Foram muitos momentos marcantes e de casa cheia. As
cavalgadas da comunidade, por exemplo que lotavam o ambiente e acabavam as
bebidas bem cedo. A boate era tão falada na região que atraía muitas pessoas de
fora para conhecê-la. Os visitantes não vinham com mais frequência por causa da
estrada de terra e as costelas de vaca. Vinha gente de longe como Várzea do Poço,
Capim Grosso, Caldeirão Grande e de toda
a região.
Como a vizinhança lidava com o
barulho e o movimento?
Avony: Nunca tivemos problemas com reclamações com vizinhos.
Além de fecharmos as portas a meia noite,
após às 23:00h o som era reduzido em
respeito a vizinhança.
Vocês sentiam que a boate mudava a
dinâmica da comunidade de Gonçalo nos fins de semana?
Mª: Sim, percebíamos que as pessoas já esperavam os fins de semana pra se
divertirem e se socializarem na boate. No 7 de setembro, após o desfile a boate
ficava lotada. Muita gente de fora, e da roça também. Na festa da padroeira também
acontecia o mesmo.
Avony: As vezes quando tinham festas no colégio, as pessoas
só subiam pra lá quando a gente fechava a boate. Até pedidos pra fechar a gente
recebia pra festa poder começar.
Qual era a maior dificuldade de
manter um negócio desses em uma comunidade menor?
Avony: A falta de policiamento constante. O fiado também era um
problema.
Em que ano a Boite Muricy fechou
definitivamente?
Mª: A Boite Muricy se manteve aberta durante 28 anos. Fechou as portas no ano
de 2014.
Qual foi o principal motivo para
encerrar as atividades?
Avony: Maricota se aposentou e já dizia que quando se
aposentasse pararia com a atividade. Eu já estava encostado por problemas de
saúde e não dava mais pra continuar.
Foi uma decisão difícil ou sentiram
que o ciclo já tinha se cumprido?
Avony: Sentimos muita falta, mas a sensação era de ciclo
cumprido.
O que sentiram no último dia de
funcionamento?
Mª: Ao mesmo tempo que sentimos liberdade, também percebemos que nos faria
muita falta.
Avony: Uma boate dá muito trabalho pra manter. Muitas vezes a
gente ficava sem dormir por causa de questões da boate.
Como vocês veem o local hoje? O que
passa pela cabeça ao olhar para aquela fachada?
Mª: Lamentamos o atual abandono do local e nos alegramos pelos tempos que
passamos lá e sentimos a sensação de dever cumprido.
Vocês têm guardado algum objeto, foto
ou recordação física da boate?
Avony: Eu ainda mantenho funcionando a aparelhagem de som.
Vocês tinham noção, na época, de que
estavam marcando a juventude de tantas pessoas (como a do entrevistador)?
Mª: Com o decorrer do tempo, fomos tendo a noção da importância daquele lugar
pra a juventude do Gonçalo. Quando se fala da Boite Muricy nas redes sociais,
muitas pessoas comentam a felicidade que já tiveram ao frequentar aquele lugar.
Se pudessem voltar no tempo, mudariam
algo na história da Boite Muricy?
Avony: Não mudaríamos nada. Faríamos tudo do mesmo jeito.
Que mensagem vocês deixariam para as
gerações que não conheceram a Boite Muricy, mas ouvem as histórias até hoje?
Mª: Realmente foi um tempo inesquecível. A Boite Muricy foi um ponto de
encontro de muitas gerações, onde os jovens iam pra se divertir e namorar. Fez
parte da história da comunidade e ficou marcada na memória das pessoas que
frequentaram o ambiente.
Aos jovens de hoje, aconselhamos procurarem ambientes saudáveis e familiares
pra frequentar e que larguem os celulares de vez em quando e vão viver a vida,
pois esta passa muito rápido e deve ser aproveitada.
Agradecemos a todos que frequentaram a
Boite Muricy, esta memória só existe por que vocês também estavam lá
participando da construção desta história. Agradecemos a todos pelo
reconhecimento da Boite Muricy como uma memória afetiva do povo gonçalense.
Obrigado Léo por registrar e divulgar esta história.
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