Praça Argileu de Oliveira Souza

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Neste blog vocês encontrarão informações pessoais de seu idealizador assim como postagens interessantes sobre o Gonçalo... Apertem os cintos e boa viagem!!!!!!

POPULAÇÃO DE GONÇALO: 1312 Habitantes (Fonte: Censo 2010)

5 de abr. de 2026

O Palco dos Nossos Melhores Anos: A Memória da Boite Muricy

 

 

Na comunidade de Gonçalo, o tempo parece ter desacelerado em frente a uma fachada que, hoje silenciosa, já foi o epicentro da vida e da alegria de gerações. Entre as décadas que moldaram nossa juventude, a Boite Muricy não era apenas um estabelecimento comercial; era o nosso ponto de encontro com o destino.

Para muitos de nós, que cruzamos aquele portal durante a juventude, a Boite Muricy foi o cenário das amizades seladas no ritmo das músicas da época e das paqueras que, em muitos casos, viraram casamentos e famílias, como no meu caso. Sob as luzes coloridas, a luz negra e o som que ecoava pelos fins de semana de Gonçalo, construímos uma identidade coletiva que o tempo não apaga.

Hoje, através do olhar e das memórias de quem deu vida a esse sonho (Ny e Maricota), mergulhamos nos bastidores dessa história através de uma entrevista. Vamos descobrir como surgiu a ideia, os desafios de manter viva a chama do entretenimento no interior e a importância de um lugar que, mais do que música, bebida e dança, oferecia um senso de pertencimento. Esta é uma homenagem a um patrimônio afetivo que permanece pulsando nas lembranças de cada um que, um dia, fez da Boite Muricy uma memória que jamais será esquecida.

 

Por: Leonardo Maia Matos - 2026

 

 

  Entrevista realizada por Leonardo Maia Matos em abril de 2026

        

Ny e Maricota na Boite Muricy - 1991                                       Léo Maia – 2009 – Boite Muricy                                                                        

    Qual o nome completo de vocês e como são conhecidos na comunidade?

: Maria Deraldina Damacena Muricy (Maricota).

Avony: Avony Lopes Muricy (Ny)

Em que ano exatamente a Boite Muricy abriu as portas?

: No ano de 1986.

De quem foi a ideia inicial de abrir uma boate em Gonçalo?

: A ideia foi de Avony, pois já trabalhava com bar na comunidade há algum tempo.

Por que escolheram esse ramo de entretenimento? 

Avony: Porque eu já tinha experiência com bar.

Qual a origem do nome " Boite Muricy"? Quem o escolheu e por quê?

Avony: Eu escolhi por causa do meu sobrenome.

O que funcionava no imóvel antes da boate?

Avony: A casa da minha mãe, já falecida na época.

Como foi o dia da inauguração? Vocês lembram da expectativa da comunidade?

Mª: Avony já trabalhava com bar anteriormente, primeiramente num bar que funcionava onde antigamente era a casa de D. Ester e depois  mudou o bar para onde era o antigo bar de Vanjinho. Ele apenas  transferiu o bar de um lugar para outro. De onde era o antigo bar de Vanjinho para onde era a casa da sua mãe. Lá abriu a Boite Muricy. A diferença é que a partir do momento passou a ser boate também. A comunidade aderiu a ideia e continuou frequentando. Agora, não só pra beber, mas para socializar e dançar também.

Qual era o objetivo principal de vocês ao abrir o negócio: lucro, lazer ou necessidade da região?

Avony: Havia a necessidade de abrir um negócio como sustento da família.

Quais eram os dias e horários de funcionamento?

Mª: Funcionava aos fins de semana, aos sábados (o dia todo e a noite também) e domingos (somente a noite). À noite abria as 20:00h e fechava por volta da meia noite ou 1:00h  da madrugada.

Quem trabalhava com vocês, haviam outros funcionários?

Avony: Um ajudava no balcão (o primeiro foi Daílton, filho do Sr. Lionel) e outro na portaria (Idelson, filho de D. Maria). Houveram outros no decorrer dos anos.

Como era o controle de entrada?

: Para entrar, os homens tinham que consumir alguma bebida. As mulheres tinham entrada livre.

Existiam regras de conduta ou idade mínima para entrar na Boite Muricy?

: A idade mínima era 15 anos. As vezes adolescentes com idade menor se aproveitavam de distrações e entravam sem permissão, mas eram retirados um a um por mim assim que eu percebia. As regras eram se comportar, não bagunçar. De tempo em tempo as luzes eram acesas pra verificarmos se estava tudo certo.

O estabelecimento dava um lucro satisfatório para o sustento da família?

Avony: Dava sim. Os nossos dois filhos foram formados com os lucros do estabelecimento. Eu também fazia pequenos bicos de pedreiro pra completar a renda.

Como vocês lidavam com a questão dos menores de idade, já que era um ponto de encontro de adolescentes?

Mª: Como já foi mencionado, periodicamente eu entrava no salão para retirar os adolescentes mais jovens que insistiam em entrar sem permissão.

Quem era o responsável pela seleção musical? Como funcionava?

Avony: Eu era o responsável. Usava uma mesa de som com misturador pra alternar de gênero musical pra outro sem precisar parar o som.

Quais gêneros musicais não podiam faltar?

Avony: Eram vários gêneros. Forró, axé, reggae, balanço e a música  internacional romântica, momento esperado pelos que queriam paquerar ao clima da luz negra.

Vocês lembram de algum casal que se conheceu na boate e está junto até hoje?

Mª: Conhecemos vários:  Podemos citar por exemplo Leonardo e Maísa. Mas foram muitos os casais que iniciaram o relacionamento tendo como trilha sonora e cenário romântico a Boite Muricy.

Ocorriam muitas brigas ou o ambiente era majoritariamente pacífico?

Mª: De vez em quando tinham brigas, mas normalmente ninguém se feria gravemente ou usava armas. As vezes os policiais entravam e mantinham a ordem do local. O policiamento era solicitado por nós. Dávamos um suporte financeiro pra que eles pudessem se manter na delegacia de Gonçalo. Eram feitas rifas e doações pela comunidade pra contribuir com o policiamento.

Havia festas temáticas ou comemorações especiais (Carnaval, São João, Aniversários)?

Mª: No carnaval eram feitas matinês para as crianças. Tinha até jurados pra julgar as melhores fantasias e tinha também premiações para os melhores colocados. Eram realizadas sempre a tarde. Era a alegria das crianças que já ficavam na expectativa.

Léo Maia, “Jó”, Léo Queiroz, Silmar, Danilo, Gilvando, André Carvalho, André Rocha

Kéu, Júnior, Diego e Marcelo – CARNAVAL EM GONÇALO 1992

Qual o momento ou festa mais marcante que aconteceu entre aquelas paredes?

Mª: Foram muitos momentos marcantes e de casa cheia. As cavalgadas da comunidade, por exemplo que lotavam o ambiente e acabavam as bebidas bem cedo. A boate era tão falada na região que atraía muitas pessoas de fora para conhecê-la. Os visitantes não vinham com mais frequência por causa da estrada de terra e as costelas de vaca. Vinha gente de longe como Várzea do Poço, Capim Grosso, Caldeirão Grande e de  toda a região.

Como a vizinhança lidava com o barulho e o movimento?

Avony: Nunca tivemos problemas com reclamações com vizinhos. Além de fecharmos as portas  a meia noite, após às 23:00h  o som era reduzido em respeito a vizinhança.

Vocês sentiam que a boate mudava a dinâmica da comunidade de Gonçalo nos fins de semana?

Mª: Sim, percebíamos que as pessoas já esperavam os fins de semana pra se divertirem e se socializarem na boate. No 7 de setembro, após o desfile a boate ficava lotada. Muita gente de fora, e da roça também. Na festa da padroeira também acontecia o mesmo.

Avony: As vezes quando tinham festas no colégio, as pessoas só subiam pra lá quando a gente fechava a boate. Até pedidos pra fechar a gente recebia pra festa poder começar.

Qual era a maior dificuldade de manter um negócio desses em uma comunidade menor?

Avony: A falta de policiamento constante. O fiado também era um problema.

Em que ano a Boite Muricy fechou definitivamente?

Mª: A Boite Muricy se manteve aberta durante 28 anos. Fechou as portas no ano de 2014.

Qual foi o principal motivo para encerrar as atividades?

Avony: Maricota se aposentou e já dizia que quando se aposentasse pararia com a atividade. Eu já estava encostado por problemas de saúde e não dava mais pra continuar.

Foi uma decisão difícil ou sentiram que o ciclo já tinha se cumprido?

Avony: Sentimos muita falta, mas a sensação era de ciclo cumprido.

O que sentiram no último dia de funcionamento?

Mª: Ao mesmo tempo que sentimos liberdade, também percebemos que nos faria muita falta.

Avony: Uma boate dá muito trabalho pra manter. Muitas vezes a gente ficava sem dormir por causa de questões da boate.

Como vocês veem o local hoje? O que passa pela cabeça ao olhar para aquela fachada?

Mª: Lamentamos o atual abandono do local e nos alegramos pelos tempos que passamos lá e sentimos a sensação de dever cumprido.

Vocês têm guardado algum objeto, foto ou recordação física da boate?

Avony: Eu ainda mantenho funcionando a aparelhagem de som.

Vocês tinham noção, na época, de que estavam marcando a juventude de tantas pessoas (como a do entrevistador)?

Mª: Com o decorrer do tempo, fomos tendo a noção da importância daquele lugar pra a juventude do Gonçalo. Quando se fala da Boite Muricy nas redes sociais, muitas pessoas comentam a felicidade que já tiveram ao frequentar aquele lugar.

Se pudessem voltar no tempo, mudariam algo na história da Boite Muricy?

Avony: Não mudaríamos nada. Faríamos tudo do mesmo jeito.

Que mensagem vocês deixariam para as gerações que não conheceram a Boite Muricy, mas ouvem as histórias até hoje?

Mª: Realmente foi um tempo inesquecível. A Boite Muricy foi um ponto de encontro de muitas gerações, onde os jovens iam pra se divertir e namorar. Fez parte da história da comunidade e ficou marcada na memória das pessoas que frequentaram o ambiente.

Aos jovens de hoje, aconselhamos  procurarem ambientes saudáveis e familiares pra frequentar e que larguem os celulares de vez em quando e vão viver a vida, pois esta passa muito rápido e deve ser aproveitada.

Agradecemos a todos que frequentaram a Boite Muricy, esta memória só existe por que vocês também estavam lá participando da construção desta história. Agradecemos a todos pelo reconhecimento da Boite Muricy como uma memória afetiva do povo gonçalense. Obrigado Léo por registrar e divulgar esta história.

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